O que você faria se soubesse que a vizinhança do lugar onde você cresceu, começasse a não querer a sua presença e a instaurar um ritual para mudar quem você é? Essa é a proposta de A Professora de Francês, longa de Ricardo Alves Jr que fez a sua estreia no Brasil pelo Festival do Rio e pela 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Vencedor de vários premios, o filme faturou o Troféu Redentor de Ouro de Melhor Atriz para Grace Passô e Melhor Ator Coadjuvante para Pedro Goifmann e a Central do Entretenimento, que conferiu o filme, te conta o porque dele ter recebido esses premios.
O longa acompanha Graça, uma professora que dá aulas de francês em Belo Horizonte, onde vive com sua namorada francesa. Após uma emergência de saúde envolvendo seu pai, retorna a casa onde cresceu, no subúrbio da cidade. Acolhida pelos vizinhos que lideram uma seita na comunidade, Graça passa a ser envolvida pelo fanatismo do lugar, que tenta devolve-la “ao seu lugar”.

Não é de hoje que vários filmes falam sobre como preconceito e religião estão tão unidos. E A Professora de Francês vem como mais um exemplo de critica aos fanáticos religiosos, que são contra a comunidade LGBT e a favor do casamento heteronormativo e a maternidade acima de tudo. Inclusive, se o filme abordasse também o aborto, provavelmente o filme ficaria ainda mais forte do que ele já é. E isso, lembra bastante Midssomar, Corra e Adivinhe Quem Vem Para o Jantar, onde o fanatismo religioso e o preconceito, são grandes aliados na luta contra o progresso. E a direção do Ricardo Alves Jr é primorosa em transformar a cidade de Belo Horizonte em uma pintura a óleo com a ajuda da fotografia do Vasco Vianna, que emana os amados anos 90 e da iluminação, que cria a tensão necessária, principalmente no escuro. Além disso, ele ainda usa e abusa de zooms leves, luz baixa e sorrisos estáticos que emanam bastante Sorria do Finn Parker, principalmente do pai da Graça que lembra bastante O Homem que Rí.
Já sobre o elenco, nós temos grandes nomes aqui como Romulo Braga, Jehnny Beth, Elisa Lucinda e Barbara Colen, que ajudam mais como suporte da dupla principal Grace Passô e Pedro Goifmann, que são o grande destaque do filme. Não é a toa que eles ganharam os premios de atuação no Festival do Rio. Pra começar, a Grace Passô, que já tinha mostrado o seu talento potente na direção de Nosso Segredo, aqui traz toda a sua bagagem teatral para construir uma Graça mais discreta e que apenas com o olhar, a atriz consegue passar para o publico, as sensações que a Graça está sentindo durante a trama. Já o Pedro Goifmann, esse aí se revela um verdadeiro monstro que dá vontade de matar. Isso porque ele constrói um Thomaz misterioso, que também é ao mesmo tempo sexy, envolvente, destruidor e assustador, onde ele usa o seu corpo, voz e principalmente os olhos, onde ele transmite o que o personagem sente e deixa os olhos do publico petrificados com a construção de tensão que é a relação dele com a Graça, que começa com uma curiosidade e termina com algo mais amedrontador, o que acaba sendo o charme do filme. Fora que, o sotaque de francês da Grace e do Pedro estão maravilhosos.
A Professora de Francês é um ótimo filme de terror psicológico que fala sobre preconceito, fanatismo e religião. E tudo isso, com DNA brasileiro que é nosso por direito. E ainda com atuações que alinhados a direção, trazem um bom filme de suspense.
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