Quando um ente querido morre, nós entramos no processo do luto, onde somente nós podemos entender e processar essa dor interna da perda. Mas, como é entender a perda dos outros? Ainda mais quando essas perdas são causadas por um parente seu? Essa é a pergunta que Vicentina Pede Desculpas faz.
Novo longa de Gabriel Martins (Marte Um e O Filho da Puta) que fez a sua estreia no Festival de Toronto e no Festival de San Sebastian, a história acompanha Vicentina (Rejane Farias), uma mulher já de idade e com um problema na perna, que a faz utilizar uma muleta. Quando um grave acidente de ônibus causado pelo seu filho tira a vida de vários passageiros, Vicentina decide embarcar numa missão de procurar os familiares de cada uma das vitimas e pedir desculpas.

Desde a pandemia, o mundo passou por uma transformação intensa e muitas vidas foram perdidas. E desde lá, várias produções audiovisuais, buscaram falar do luto e da valorização da vida antes da morte e depois dela. Acredito que se fosse um filme da vida real, o nome dele seria Yuhan Pede Desculpas pelo Covid. Mas com Vicentina Pede Desculpas, a situação é um pouco diferente. Aqui, Gabriel Martins decide falar sobre perda e luto, mas abordando o processo de lidar com esse sentimento em diferentes classes sociais, tema esse que vimos recentemente em Nosso Segredo. Só que diferente do filme da Grace Passô, que foca mais no micro, aqui Gabriel Martins vai para o macro e explora as diferentes visões e pensamentos sobre o luto, com uma direção mais contemplativa e reforçada de vários silêncios.
O roteiro, ele parte da tragédia para mostrar a reação primeiro da Vicentina e como todo esse acidente mexeu muito com ela. Pra só depois, é que ele faz ela ir para sua missão de visitar cada uma das famílias e pedir desculpas. E nessa parte, Gabriel e Rejiane seguram uma faca de dois gumes. Porque ao mesmo tempo em que a cada visita, a Vicentina e o publico exploram, absorvem e refletem o luto de cada parente da vítima do Ônibus, a repetição do mesmo cenário e do mesmo texto fica massivo demais e chega uma hora que cansa. Mas como eu disse, o lado bom dessa missão, é ver como cada pessoa de diferentes classes sociais, reagem ao pedido da Vicentina e expõem a sua visão de luto e perda, podendo ou não aceitar as desculpas da Vicentina. Além disso, o filme adota um tom mais obscuro e sem respiros cômicos, mesmo ele tentando com a personagem Joana, que não consegue arrancar sorrisos da audiência, que mergulha totalmente nas dores de Vicentina.

Agora vamos falar sobre Rejane Faria, que depois do desperdício em que ela foi aproveitada em Três Graças, aqui ela se entrega na história da Vicentina e constrói uma protagonista que é pautada pela sua dor e a atriz entrega isso muito bem nas expressões mais tristes e contemplativas. E quando a Vicentina recebe a dor da família a quem ela foi visitar, a Rejane recebe isso também de uma maneira sutil e bem delicada, com exceção do Flávio Bulamarqui, que já reage de uma maneira mais impulsiva e raivosa. Outra que também manda bem, mas não consegue causar o humor necessário por causa do drama soturno criado pelo roteiro, é a Maria Azevedo. A Joana que ela entrega, é aquela amiga que tá lá pra apoiar em tudo e até tem umas tiradas muito boas. Mas o clima pesado do filme não permite esse respiro, porque para ele acontecer, tem que haver uma transição e uma construção como em Deus é Brasileiro por exemplo.
Vicentina Pede Desculpas é uma boa pedida para refletirmos sobre o luto e a perda e um bom complemento para Nosso Segredo, que é da Grace Passô, que também produziu esse filme aqui. E no final, o que se tira de lição do filme, é que o luto é a continuação de um amor, que já não está mais em vida e a cena do aniversário póstumo da primeira família, é o que reflete esse filme.
O Filme estreia 05 de Novembro em alguns cinemas pelo Brasil e no dia 20 de Novembro, ele estreia na Netflix.
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