O Cinema brasileiro tem obras queer marcantes em sua trajetória e vem passando por uma transformação marcante ao longo dos anos. Onde saímos de histórias com final triste e que tratavam a sexualidade como algo ruim, para algo mais alegre e feliz, que foi o que tivemos com o filme Quem Vai Ficar com Mário e até mesmo com o curta Velha Roupa Colorida, que passou no Cine PE 2026. E como estamos em um período, onde mais pessoas estão aceitando casais LGBTQUIAPN+, como o Shane o Ilya de Rivalidade Ardente, o casal Loquinha de Três Graças e até mesmo o casal Charlie e Nick de Heartstopper, é que chegamos na primeira adaptação literária queer brasileira, que traz um novo parâmetro para o jeito de se contar histórias LGBT no audiovisual.
Quinze Dias, dirigido por Daniel Lieff e roteirizado por Vitor Brandt e Ray Tavares baseado na obra de mesmo nome escrita por Vitor Martins, conta a história de Felipe (Miguel Lallo), um menino gay e gordo que sofre desde a infância por causa de seu peso e que ultimamente ele só quer ficar logo de férias e não saber da escola por um mês. Mas, tudo muda quando Felipe descobre por sua mãe que Caio (Diego Lira), seu vizinho com quem ele não fala há muito tempo, vai passar quinze dias com eles. E a partir daí, os dois embarcam em um jornada de auto-aceitação que mudará a vida de ambos para sempre.

Lançado em 2017 pela Editora Alt, o selo da Globo Livros destinado ao publico jovem e LGBT, Quinze Dias é um relato de como o autor do livro, o Vitor Martins, conheceu o seu marido com quem é casado até hoje. E um detalhe muito bom do livro e que é preservado no filme e que acaba sendo o primeiro ponto positivo, é que ambas as obras são muito gostosas de se acompanhar. A maneira como os fatos vão acontecendo e tudo com um toque leve e sem esteriótipos, é o que faz o leitor e agora também espectador, a se apaixonar por essa história, que tem um tom de novela das sete bem bacana e pequenos toques a Heartstopper. O roteiro escrito pelo Vitor Brandt e pela Ray Tavares consegue de maneira única, preservar a essência da obra literária e ser bastante fiel ao transcrever das paginas para as telonas, vários momentos marcantes da história. Inclusive, digo até que ele melhora e muito vários momentos, principalmente aqueles onde o Felipe no livro, cita filmes clássicos da cultura pop para explicar o que ele está sentindo, só que no filme, ele vivencia esses momentos, o que rende participações maravilhosas do Augusto Madeira e do Fernando Caruso.
Mas, como em toda adaptação de um livro para os cinemas, a versão cinematográfica de Quinze Dias vai ter muitos cortes significativos, reduzindo até alguns dias da história a momentos rápidos, o que pode frustrar alguns leitores. Mas no geral, isso deixa até a história mais fluida. E parte disso, está nas sequencias inéditas que não estão no livro e que trazem um conflito para os personagens principais, o que aproxima eles ainda mais da realidade. Fora o final, que dá um belíssimo upgrade no final do livro e serve até como um complemento para quem sentiu algo faltando no final do livro original.

A direção do Daniel Lieff, que vem de várias séries de TV como Tremembé e estreia em seu primeiro longa-metragem, é muito certeira em apostar bastante nas transições entre as cenas, criando quase pequenos planos-sequencia na condução de cada um dos dias e em várias cenas vistas em primeira pessoa, para colocar o espectador na visão do Felipe e do Caio. Inclusive, vale destacar a referencia para As Visões de Raven, que nesse caso são os pensamentos cinematográficos do Felipe. Além disso, a maneira como a direção troca de um cenário para o outro e vai situando o telespectador do avançar dos quinze dias, é muito boa de se ver, porque o próprio cenário e até mesmo o figurino, tem uma utilidade a mais do que só demonstrar o olhar semiótico da história.
Agora, dentre os membros do elenco, sem sombra de duvida, os grandes destaques vão para os protagonistas Miguel Lallo e Diego Lira, que fazem um Caio e um Felipe, onde a química entre os dois, já faz você querer torcer por eles como casal, que também traz um outro ponto importante e que é a maior vitória do filme até aqui, ser um casal não padrão de corpo. Porque em várias produções audiovisuais e até mesmo dentro da comunidade LGBT, o foco é sempre ter casais gays, onde o corpo do homem tem que ser magro, bem definido de tanquinho e quanto mais músculos melhor. E aqui, Quinze Dias quebra esse paradigma e se aproxima bem mais da realidade, que tem vários casais compostos de pessoas gordas e magras. E como esse é o primeiro trabalho dos dois, eles foram um ótimo achado e os dois tem um futuro brilhante pela frente, assim como está sendo para o Connor Storrie e o Hudson Williams, que estouraram em Rivalidade Ardente (Heated Rivlary).

Outro ponto interessante no elenco, está também na parte do amor maternal, que aqui, é refletida no seus dois lados da moeda, sendo um lado o compreensivo e acolhedor, que a Débora Falabella faz muito bem sendo a mãe do Felipe. E o outro, mais agressivo e conservador, que refletido pela Mariana Santos, que por já ter experiência em fazer personagens estéricas e rancorosas, consegue trazer esse lado para a mãe do Caio, que diferente do livro, ganha contornos a mais que vai deixar muito leitor satisfeito no final.
Quinze Dias é um filme mostrou o caminho dos tijolos amarelos do mundo do cinema, para outras futuras adaptações de livros queer escritos por brasileiros e que só reforça ainda mais em tempos sombrios de preconceito, que o espaço que a comunidade LGBT brasileira está alcançando no audiovisual e no mundo real, já é uma realidade aceitável.
NOTA:


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