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Central Critica Vitória – Uma história que não é recente, não é uma novela da Record e sim sobre humanidade, coragem e cidadania

Toda grande cidade que se preze, tem a violência presente no dia a dia. E se tem uma coisa que todo e qualquer cidadão deseja, é ter paz e que as autoridades competentes façam a justiça valer a pena. Só que nem sempre isso acontece e na maioria das vezes, nós é que temos que pagar o pato ou fazer a justiça valer com as nossas próprias mãos, como Manuela Dias já nos mostrou duas vezes. Mas, quando você tenta pedir ajuda ao estado e não é ouvido. O que você faria para combater a violência? Você exerceria sua função de cidadão?

Vitória responde justamente a essa pergunta, através da história de Nina (Fernanda Montenegro), uma senhora aposentada e que trabalha como massagista para ter um plus ao seu dinheiro da aposentadoria. Só que mesmo tendo uma vida confortável, Nina tem que conviver com o tráfico de drogas que ocorre livremente na sua janela. Cansada de tanto apelar para o estado e não ter respsostas, Nina compra uma filmadora VHS em 12 prestações, começa a filmar tudo o que acontece na sua janela e a partir daí, sua vida muda radicalmente.

Divulgação: Sony Pictures/Conspiração/Globoplay Filmes

Essa história que você leu na sinopse, aconteceu de verdade na nossa amada/odiada vida real e foi no ano de 2005, uma época onde não tínhamos redes sociais, muito menos celulares com câmeras 4K. Mas tínhamos a violência e a corrupção tomando conta de várias cidades brasileiras. O trafico de drogas tava se modernizando, os criminosos estavam encontrando várias formas de estarem sempre um passo a frente da polícia e os cidadãos ficavam inseguros e com muito medo. Mas, pessoas como a dona Joana da Paz eram poucas que surgiam. E o caso dela, eu me lembro como se fosse hoje. Eu, com 8 anos de idade, me surpreendia com a coragem dessa senhora, que derrubou uma quadrilha inteira e com uma única câmera.

O roteiro desse filme, que foi escrito pela Paula Fiuza e pelo Breno Silveira, adapta muito bem a história central da dona Joana e a relação dela com o Fábio Gusmão, jornalista que acompanhou todo o caso de perto e que escreveu um livro, contando os bastidores dessa história. Bastidores esses, em que parte deles está no filme e parte não. Isso porque, por se tratar de uma inspiração em uma história real, o roteiro toma algumas liberdades criativas e deixa a história da Dona Nina com um pouco mais de suspense pelo que irá acontecer com a protagonista e com mais humanidade, que era uma característica forte da Joana da Paz.

Divulgação: Sony Pictures/Conspiração/Globoplay Filmes

A direção desse filme é um caso a parte, pois ela tem o trabalho de duas pessoas, que é o resultado de uma linda amizade que rolou nos corredores da Conspiração Filmes. Isso porque, o Andrucha Waddington é amigo de Breno Silveira, o idealizador do projeto. E o Brenno, morreu aos 54 anos de idade do coração enquanto estavam rolando as filmagens. E assim que foi chamado para tocar o resto da produção, Andrucha aceitou a missão e conseguiu honrar o trabalho de Bruno e digo que ele até deu um up a mais na produção, que pela fotografia, entrega um tom mais sério e frio até os seus 60%. Quando ele vai se encaminhando pro final, a direção do Andrucha traz um pouco de luz e de esperança para a história, além de algumas pitadas de humor e uma bela referencia a Cidade de Deus.

Já sobre o elenco, palavras faltam para descrever a potencia da natureza que é a Fernanda Montenegro, que ao contrario de Ainda Estou Aqui, aqui ela fala demais e fala com destreza e determinação, o que traz, a tal da humanidade e da cidadania que o filme fala e que falta hoje em dia na sociedade. Sobre o fato da Fernandona estar dando vida a mulher que na vida real era negra, esse é um fato que deve ser ignorado, já que, quando o filme começou a ser gravado, a identidade da dona Joana ainda era um mistério e ela ainda era conhecida como Vitória da Paz. O Alan Rocha dá vida a um Fábio Gusmão bem mais humano, solidário e preocupado com o próximo, mesmo que ele não apareça tanto no filme e seja mais como uma ponte para ajudar a Nina a conseguir cumprir o seu objetivo. Agora, sobre o garotinho feito pelo Thawan Lucas e a vizinha feita pela Linn da Quebrada, são adições perfeitas para trazer a humanidade e mais emoção a trama da dona Joana, que na vida real era comunicativa, tinha amigos, mas não convivia muito com eles em sua casa por causa do trafico. Além do mais, traz um pouco de diversidade para a trama, o que conecta ela com os temas atuais.

Divulgação: Sony Pictures/Conspiração/Globoplay Filmes

Um ultimo ponto que eu gostaria de ressaltar, é o trabalho do design de produção. Afinal, eu fui uma pessoa que viveu os anos 2000 intensamente, até onde eu podia é claro. E o ambiente dos anos 2000, foi muito bem retratado aqui em Vitória. Os carros, as famosas e eternas TV´s de tubo, os aparelhos de fita cassete, os adaptadores para as fitas menores. Tudo isso está presente neste filme, que mais uma vez repito, traz humanidade e lembra de que para exercemos o nosso oficio de cidadão, temos que cobrar as autoridades competentes sempre, mesmo que a justiça falha, ela, mais hora menos hora, volta a tardar e funciona.

Vitória é mais um exemplo de que o nosso cinema brasileiro está mais vivo do que nunca. E depois do Oscar de Ainda Estou Aqui, esse filme vem para nos mostrar que nós somos heróis do nosso país. E que se fizermos a nossa parte para combater a violência, os problemas de saúde e manter tudo em pleno funcionamento, nós podemos tornar o nosso país melhor, mesmo que isso demore muitos e muitos anos.

NOTA: 9,0

Divulgação: Sony Pictures Brasil

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