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Central Critica no Cine PE | Doutor Monstro – Recheado de polemica, Marcos Jorge aborda de maneira nua e crua o feminicidio

Até onde vai os limites da pisique humana? Até onde vamos para defender ou atacar uma pessoa? São essas as questões que o diretor e roteirista Marcos Jorge aborda em seu novo filme Doutor Monstro, filme que é inspirado na história real do médico e cirurgião plástico Farah Jorge Farah, que matou uma mulher apenas por ela ser mulher em 2003. Naquela época ainda não existia o crime de feminicidio e nem existia a lei Maria da Penha. Além do mais, qualquer caso chocante que era noticiado, a mídia fazia um grande caso, conduzindo as pessoas a acreditarem em uma versão e não em outra da história.

O longa acompanha Claudia (Taís Araújo), uma promotora publica que começa a investigar o caso do médico Farah Jorge Farah (Marat Descartes), um julgamento em que a mídia e a justiça se entrelaçam, revelando como em um país marcado pelo feminicídio e pelas brechas sistêmicas, podem distorcer a verdade e enfraquecer a responsabilização de homens acusados de violência contra mulheres.

Embora não seja a primeira obra audiovisual a falar sobre violência contra a mulher, o grande trunfo que Doutor Monstro tem nas mãos, é o fato de ser um filme brasileiro de tribunal, algo inédito no nosso cinema. Mas também, o fato dele falar sobre feminicídio de uma maneira tão nua e crua e numa época onde esse termo ainda não existia e as mulheres eram desprotegidas. E se olharmos para os dias de hoje, onde temos leis e alguns poucos avanços, as mulheres continuam morrendo mesmo com toda essa segurança. O roteiro escrito por dois homens: Marcos Jorge e Bernardo Rennó aborda em três atos, a vida do médico até o momento do crime, a vida dele e da promotora após o caso e principalmente, o julgamento no tribunal, onde 90% do filme se passa. Além disso, a maneira como a justiça trata esse tema em parceria com a mídia nos anos 2000, sempre se aproveitando de brechas e invertendo muitas vezes os papeis de acusado e vítima, é mostrado de uma maneira única e que pode causar revolta a depender do telespectador.

E porque digo que é a depender do telespectador? Isso porque a direção do Marcos Jorge, ela coloca o telespectador na posição do júri que está avaliando o caso. Então a todo o momento, o publico vai ficar se perguntando se o médico interpretado brilhantemente pelo ator Marat Descartes, é inocente ou não. E esse, é um dos temas mais polêmicos que o filme aborda também, a ambigüidade humana, mostrando algo que produções, sejam elas brasileiras ou internacionais já vem tratando a anos: que nem todo o mocinho ou mocinha é 100% bom e nem todo vilão ou vilã, é 100% ruim. E a cena que melhor ilustra isso, é a sequência do jantar do advogado Fontes (Guilherme Webber), onde o jogo da advocacia na justiça e a duvida sobre o caráter e a culpa do Farah são postas a prova.

Voltando a falar da atuação do elenco, o Marat Descartes entrega um Farah preciso, sedutor e com características marcantes e precisas que fazem o telespectador as vezes gostar dele e as vezes odiar ele. Além do mais, embora ele seja o protagonista titular do filme, o protagonismo acaba ficando mesmo, é com a Taís Araújo, que mesmo fazendo mais uma advogada em sua extensa carreira de três décadas, a Claudia acaba sendo um ponto fora da curva, justamente por ser a porta-voz de todas as mulheres desse Brasil ao ser uma procuradora de justiça preta, empoderada e que sabe dos próprios desejos e das suas vontades. Não é a toa que na metade do filme para o final, o Farah acaba sumindo de cena e o foco fica todo na Claudia, que demonstra suas fraquezas, suas obsessões com o caso e como isso a está consumindo por dentro.

Outro ponto marcante de Doutor Monstro e que já é uma característica da cinebiografia do Marcos Jorge, é o uso insistente de closes nos rostos dos personagens e do som emitido por coisas simples como comer um doce ou até cortar uma carne num almoço em família. E principalmente, o uso da música clássica, que vai acompanhando a evolução degradativa do Farah e nos colocando não só no ponto de vista dele, como também dentro da mente dele, onde novamente, vamos avaliar como júri e decidir o destino dele para o nosso subconsiente. E por falar no nosso cérebro, outra coisa que Doutor Monstro provoca, é a inquietação e a violência, com sequencias meio nojentas e agoniantes, o que poderia colocar Marcos Jorge para ser o próximo diretor de um filme da franquia Jogos Mortais ou de algum filme da BlumHouse.

Doutor Monstro é um filme que merece ser debatido e vai ser debatido quando estrear dia 10 de setembro. É um filme onde a verdade que importa, é a de quem a emite. E no final das contas, todo ser humano é hipócrita e tem um prazer com culpa, o famoso Guilty Plaser.

NOTA:

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