Todo país que se preze, tem um passado bom e um passado ruim. Com o Brasil não é diferente. Nós tivemos uma boa produção de cana de açúcar, somos pioneiros na exportação de café e na produção de algumas frutas e hortaliças e travamos guerras gloriosas, além da conquista da nossa própria independência, como as Diretas Já. Mas, o lado ruim nunca nos deixou. O racismo e a escravidão que foram uma marca no nosso país, continua até hoje e a ditatura militar, que causou horrores em que viveu nos anos 70.
Mas, o impacto que a ditatura causava nas pessoas que eram vitimas dela, nunca foi mostrado com tanta humanidade, quanto em Ainda Estou Aqui, filme dirigido por Walter Salles, escrito por Murilo Hauser e Heitor Laurega adaptando a obra de mesmo nome do autor Marcelo Rubens Paiva e estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello. O filme acompanha a família Paiva, que é assolada pela ditatura quando o patriarca Rubens (Selton), é levado embora e acaba sendo morto sem explicações. A partir de então, a matriarca Eunice (Fernanda), inicia uma luta para provar a morte do seu marido pelo estado brasileiro.

A ditatura militar já foi mostrada diversas vezes e em diversas formas. Mas com Ainda Estou Aqui, nós vemos um outro olhar desse regime tão assombroso, um olhar mais intimista de quem viveu esse pesadelo de perto. A história da família Paiva, é um relato que quase pouca gente sabe. Então o livro, assim como o filme, são a prova viva de que a história da ditatura militar, vista pelo ponto de quem sentiu ela na pele, é uma coisa que precisa ser contada e mostrada para as novas gerações, para elas entenderem como foi a ditatura militar. A ultima vez em que o regime foi mostrado na sua forma mais crua, foi na minissérie Os Dias Eram Assim e na primeira fase de Senhora do Destino.
Mas voltando para a ditatura de Ainda Estou Aqui, uma das coisas que realmente a diferencia das outras e que foi comprovada por vários integrantes do elenco, é a sua humanidade e sem precisar ser explicita. O roteiro do Murilo e do Heitor, conseguiu juntar os relatos do livro do Marcelo com os documentos e imagens oficiais e construir uma narrativa tocante, que poucas vezes foi vista no cinema. Somando isso a direção primorosa do Walter Salles, que retorna depois de 20 anos da Central do Brasil, nós temos um documento em movimento que pode ser aproveitado por todas as novas gerações, incluindo este aqui que vos escreve. Eu já tinha visto histórias sobre a ditadura, mas nunca dessa forma, tão forte e violenta e sem o uso da explicidade.

Continuando a falar da direção do Walter, ele utiliza muito da técnica do Super 8 algumas vezes, porque temos a personagem da Valentina Herszage, que é uma cineasta que filma usando Super 8, então tem vezes que mesmo você sabendo quando não é Super 8, tem um granulado na imagem que se assemelha muito ao da Super 8 e que remete um pouco a Central do Brasil, que se utiliza desse mesmo formato granulado. Falando agora do elenco, que bom que temos uma atriz tão poderosa, pra não dizer outro termo, como a Fernanda Torres. Conhecida mais pela veia de humor e ironia, aqui ela deixa tudo de lado e mergulha full all no drama, mostrando um outro lado dela que já tinha soltado um gostinho na minissérie FIM. Além disso, Fernanda também mostra a força, a frieza e a resiliência que a Eunice tinha diante das situações. Afinal de contas, ela era apenas uma mãe tentando unir a sua família novamente.
Já o Selton Mello, que teve um trabalho mais difícil na construção do Rubens Paiva, traz uma versão mais positiva e amorosa do patriarca, a química dele com a Fernanda Torres é mágica de tão linda e um outro ponto positivo que ajuda e muito na narrativa dessa história, é a direção de fotografia que usando apenas a iluminação, consegue passar a alegria e o drama vivido pelos personagens.

Ainda Estou Aqui é um filme necessário para o povo brasileiro e que encanta pela sua humanidade. Se vai entrar no Oscar e levar a melhor? Aí são outros quinhentos. Mas vale a pena ver, para entender melhor e de um outro ângulo, esse período tão tenebroso que foi a ditadura e quem sabe mostrar para quem acha que esse regime foi uma maravilha, que as coisas não são bem assim. A história do Paiva agora está sendo mostrada para todos e que bom que esse filme chegou a tempo.
VIVA O CINEMA E A CULTURA BRASILEIRA
NOTA: 10,0

E vocês, concordam ou discordam dessa critica? Comentem com a #CentralCritica e não deixem de nos acompanhar no nosso canal do Youtube e nas redes sociais.





